Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva

  Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva
                Em abril de 2012, o Conselho Federal de Medicina aprovou e regulamentou (Resolução 1.986/2012) a técnica de "Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva" como ato médico. Isto significa que a técnica só pode ser utilizada por um médico.
                A estimulação magnética transcraniana (chamada também de extracraniana) repetitiva não funciona para todos. Isto não quer dizer muito. Não existe nenhum tratamento para depressão que funcione em 100% dos pacientes tratados. Um exemplo disto são os resultados do estudo publicado no JAMA (Journal of the American Medical Association) em 2010. Uma meta-análise avaliou seis estudos (duplo cego randomizado controlado com placebo) num total de 718 pacientes utilizando antidepressivos ou placebo. O estudo demonstrou que os antidepressivos foram mais eficazes que o placebo em apenas 40% dos pacientes.
                Resultado semelhante foi obtido em 2008 num estudo mais amplo. Foram avaliados os dados de todos os ensaios clínicos submetidos ao FDA para aprovação dos antidepressivos Prozac, Paxil e Efexor. A taxa de eficácia das psicoterapias pode ser semelhante à dos antidepressivos, considerando a TCC, mas apenas nos casos leves a moderados. Sendo assim, não faz sentido considerar procedente a crítica de que nem todos os pacientes respondem à estimulação magnética transcraniana de repetição. Claro que não respondem, mas isto acontece com todas as modalidades de tratamento para a depressão.
                A estimulação Magnética transcraniana repetitiva foi aprovada pelo FDA (Food and Drug Administration) em 7 de outubro de 2008. O Brasil levou quatro anos para reconhecer isto. Alguém poderia dizer que o Brasil realisou seus próprios estudos para aprovar a técnica. Os estudos foram realizados na USP. Mas resta uma pergunta: Porque se levou tanto tempo para chegar à mesma conclusão? A técnica é utilizada desde 1992 na psiquiatria. O Canadá aprovou em 2002. O Brasil parece excessivamente criterioso ou muito lento. É comum ouvir comentários fantasiosos de que não há resultados conclusivos e existem resultados até mesmo contraditórios. Isto de fato ocorreu durante mais de uma década de estudo e aperfeiçoamento da técnica que hoje é sustentada por evidências científicas convincentes. Fazendo uma analogia com o medicamento, é bom lembrar que desde o início da pesquisa básica de uma substância (ex. um antidepressivo) até a sua comercialização pode levar até 10 anos.
                Tem um outro problema. O Brasil aprovou o uso da estimulação magnética transcraniana repetitiva apenas para depressão bipolar e unipolar e na alucinação auditiva na esquizofrenia. Existe evidência científica suficiente para outras indicações como Dependência de cocaína (por extensão o crack), dor crônica e zumbido. Existem outros estudos no Brasil com perda de memória em casos de "prejuízo cognitivo leve", autismo e até em déficits neurológicos pós acidentes cerebrais como "derrame". Há estudos no Brasil e no mundo em epilepsia, dislexia e déficit de atenção e hiperatividade entre outros. Talvez, com sorte, em cinco ou dez anos, pacientes com estes problemas possam se beneficiar, também no Brasil.
                Como funciona a Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva?
                Funciona por indução eletromagnética. Um dos três fenômenos do eletromagnetismo. Uma corrente elétrica é gerada em um condutor fechado quando ocorre variação no campo magnético no qual está inserido o condutor. Uma sequência de pulsos rápidos de campo magnético induzem um campo elétrico responsável por gerar correntes elétricas nos tecidos alvo, análogas à estimulação elétrica convencional. Isto acontece na bobina do equipamento de estimulação magnética transcraniana repetitiva. A bobina pode ser auto refrigerada o que impede o aquecimento da bobina e o desconforto no couro cabeludo.
                Pode ser usada uma toca de natação para cobrir a cabeça do paciente. A bobina, instrumento de formato achatado em forma de oito, duas vezes maior que um celular pequeno. O formato em oito possibilita produzir o máximo de estimulação no centro (eixo) da bobina e o mínimo fora do eixo, garantindo que a estimulação seja restrita à área desejada. Por isso é necessário que se encontre a posição correta a fim de se estimular a área cerebral desejada com precisão.
Quais são os riscos e efeitos colaterais?
                São praticamente nulos. É indolor. Do ponto de vista prático, imperceptível a não ser pelo som produzido a cada pulso gerado. O maior risco é a indução de um episódio convulsivo, extremamente raro e que pode ser evitado com avaliação médica e respeito à normas de segurança. Nos primeiros anos de estudo e uso da estimulação magnética transcraniana, foram relatados oito casos de convulsão induzida, mas desde que se implementaram normas de segurança isto praticamente desapareceu.
                A estimulação magnética transcraniana não produz nenhum efeito negativo ou perceptível na memória. O paciente pode vir à sessão sozinho, dirigindo. Pode conversar normalmente, durante a sessão e depois voltar para casa dirigindo como se tivesse ido ao salão de beleza.  
A estimulação magnética é semelhante à ECT?
                A ECT (eletro convulso terapia), como sugere o nome da técnica consiste em provocar uma convulsão no paciente previamente anestesiado. Vejamos as diferenças:
1.   Anestesia geral. Durante a eletro convulso terapia o paciente permanece inconsciente submetido a uma anestesia geral. Na estimulação magnética transcraniana de repetição o paciente permanece consciente o tempo todo e não fica sob o efeito de nenhuma substância ou medicamento.
2.   Convulsão. Durante a sessão da eletro convulso terapia o paciente é induzido a uma convulsão, ou seja, a ECT consiste de uma convulsão provocada por uma corrente elétrica. Na estimulação magnética transcraniana de repetição a convulsão é o mais grave risco e com as medidas de segurança foi praticamente erradicada.
3.   Amnésia. Depois de uma sessão de eletroconvulso terapia o paciente apresenta amnésia anterógrada (esquecimento de conteúdos aprendidos posteriormente ao procedimento), retrógrada (esquecimento de conteúdos anteriores ao procedimento) e confusão mental. O paciente pode levar até 10 minutos depois da eletro convulso terapia para lembrar quem é, aonde está e "que dia é hoje". Alguns pacientes podem se queixar de esquecimento por meses. Na estimulação magnética transcraniana repetitiva o paciente não apresenta nenhum tipo de esquecimento.
4.   O ambiente. A eletro convulso terapia é realisada em um hospital, em um centro cirúrgico com a presença de um anestesista. fica em observação depois do procedimento, já que está se recuperando de uma anestesia geral. Tem que estar acompanhada. A estimulação magnética transcraniana de repetição pode ser realisada no consultório médico com condições mínimas de cuidados e eventual emergência. Não precisa estar acompanhada e não tem período de observação após o procedimento.
5.   Mortalidade. Na eletro convulso terapia a mortalidade é rara, em torno de uma cada cem mil. Na estimulação magnética transcraniana não há caso descrito.

                                  Bobina angulada em forma de oito, refrigerada.