Pavarotti e o mapa tonotópico!

Eu estou em São Paulo no 9º Congresso Brasileiro Cérebro, Comportamento e Emoções. O mais interessante neste congresso foi a palestra do Neurocientista Antonio Damasio. Seu trabalho tem como foco as emoções, não simplesmente do indivíduo, mas de um individuo para com os outros. Isto é interessante. Durante muito tempo achei que o cérebro humano, especialmente o seu funcionamento cognitivo e emocional, era o fenômeno mais complexo do universo, mas depois me convenci de que relação entre dois ou mais indivíduos era mais complexa. Damasio e seus colaboradores tem se concentrado em algumas emoções que envolvem valores morais tais como compaixão, orgulho, vergonha e admiração. Especialmente as três primeiras não começam com os seres humanos, segundo Damasio, mas com seus ancestrais evolutivos (neste ponto eu discordo), num aspectos mais profundos e fisiológicos que propriamente social. Para Damásio, os sentimentos são como que uma fotografia de todas as sensações corporais (fisiológicas) em um dado momento. Em cima desta premissa é construída sua visão da mente humana. Ele trabalhou durante décadas com pacientes que apresentavam lesões cerebrais (tumores, acidentes vasculares cerebrais, etc.). Isto lhe conferiu uma posição privilegiada. É fácil de entender. Ninguém permitiria que lhe fosse tirado uma parte do cérebro para que se pudesse saber o que aconteceria com a sua mente. Por isso a dificuldade de se fazer este tipo de estudo e a posição privilegiada que mencionei. Seu primeiro livro foi “O erro de Descartes” [(edição original em 1995) Para pronunciar corretamente é só omitir os dois “s”] é o mais conhecido. O livro “O mistério da consciência” (edição original em 2000) foi reconhecido como os dez livros do ano pelo New York Times. Em 2010 foi o mais recente, “O livro da consciência” (Editado em Portugal). Escreveu ainda “Em busca de Espinosa” (edição original em 2003) e “E o Cérebro criou o Homem” (edição original em 2009). As ciências básicas são, em grande parte, reducionistas. Elas não contribuem para resolver o problema. Apenas descrevem os detalhes em um nível cada vez mais profundo que em sua maior parte é infrutífera. Vamos dar um exemplo. Você assiste a um concerto de Luciano Pavarotti, interpretando "Nessun Dorma" acompanhado pela orquestra sinfônica (agora só em vídeo). A sensação é indescritível (lógico que alguns prefeririam um pagode). Vamos imaginar o que a neurociência tem a ver com isto. Bem, a pesquisa neurocientífica básica estudaria os mecanismos pelos quais as ondas sonoras produzidas pelos instrumentos da orquestra e pelas cordas vocais de Pavarotti são captadas pelo centro auditivo primário que se localiza no córtex parietal nas áreas 41 e 42 de Brodmann no hemisfério esquerdo. O exato funcionamento e o propósito do mapa tonotópico ainda não é conhecido. Depende da capacidade da cóclea em reagir diferentemente a cada frequência. Esta informação que chega ao córtex auditivo primário tem que conter dados da localização espacial e da diferença de cada frequência. Estes estímulos elétricos vão parar no córtex occipital onde serão integrados com outras áreas corticais que possibilitarão distinguir cada instrumento, da voz de Pavarotti e da senhora sentada ao seu lado que não para de cochichar. É possível distinguir os instrumentos, para quem os conhece, mesmo que todos eles estejam tocando o Lá fundamental (a mesma frequência, se estiverem afinados). Agora imagine o que você sentiria lendo um artigo científico sobre o papel do mapa tonotópico na percepção das diferentes frequências. Ainda que você lesse trinta artigos científicos que reúnem décadas de pesquisa, você não conseguiria ter a sensação de ouvir o concerto ao vivo. O concerto e a maravilhosa capacidade de ser apreciado pelo teu cérebro constitui o todo. A pesquisa neurocientífica vai reduzir este fenômeno a uma realidade muito pequena comparada ao todo, que é ler um artigo científico. Quando um paciente deprimido vem ao consultório do psiquiatra, ele não quer saber exatamente que circuitos cerebrais estão envolvidos e quais neurotransmissores estão atuando nestes circuitos. O paciente quer que o médico o ajude a voltar a sentir vontade de assistir ao concerto e a sentir o mesmo prazer de antes (antes de deprimir). Cabe ao médico utilizar alguns destes detalhes técnicos para saber que medicação utilizar e quais técnicas psicoterápicas serão mais eficientes. Concluindo, não se pode esperar que a neurociência leve as relações humanas a um nível mais elevado. Isto não é o objetivo da neurociência em si, muito menos algo possível.